A Capital da Tecnologia

SITUADA EM UMA REGIÃO de agronegócio pujante, São Carlos também gera conhecimento científico nessa área. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) instalou seu primeiro laboratório na cidade em 1984. "Acreditávamos que a física tinha muito a contribuir com a agropecuária", afirma o físico Sérgio Mascarenhas, um dos fundadores da unidade de Instrumentação Agropecuária da Embrapa. Mascarenhas estava certo. Uma das recentes pesquisas realizadas na instituição resultou num processo que avalia o interior de uma fruta por meio de ressonância magnética. A empresa aposta que será assim o controle de qualidade do futuro, especialmente nos frutos a ser exportados. Outra pesquisa, essa já com aplicação comercial, é a língua eletrônica, um equipamento formado por um conjunto de sensores que simulam as papilas gustativas do ser humano, porém com a sensibilidade aumentada em 10 000 vezes. A língua eletrônica está sendo empregada na classificação de cafés pela Associação Brasileira da Indústria de Café. A Embrapa mantém na cidade também uma unidade que faz pesquisa genética de bovinos e, ainda neste ano, deve inaugurar um laboratório de nanotecnologia para o agronegócio.

O surgimento do pólo tecnológico de São Carlos deu-se de modo similar a outros criados mundo afora. Guardadas as devidas proporções, o Vale do Silício, na Califórnia, também teve como origem os centros universitários, especialmente o da Universidade de Stanford, de onde saíram, por exemplo, os fundadores da HP. As semelhanças, porém, param aí. São Carlos não conta nem de longe com a estrutura que possibilitou que empresas abertas em garagens e incubadoras se transformassem nas atuais potências do Vale do Silício. A falta de capital é do que mais se ressentem os empreendedores brasileiros. A Opto não encontrou no Brasil, mas na Austrália, o aporte de 4 milhões de dólares para viabilizar seu projeto de internacionalização. Antes da empreitada do satélite sino-brasileiro, a empresa, fundada há 20 anos, já era a única no país a fabricar equipamentos como o laser para cirurgias oftalmológicas. "Tínhamos produtos, mas faltava estrutura comercial para promovê-los fora do país", afirma Castro Neto. Com o aporte do fundo Innovation Capital, ele abriu há um ano a Opto Global, com sede na cidade australiana de Adelaide. Lá, 15 funcionários trabalham promovendo os produtos da Opto nos mercados europeu e asiático. Em Sacramento, na Califórnia, outra equipe, de cinco pessoas, batalha por espaço no mercado americano.

Além de germinar novos negócios, o pólo tecnológico criado em São Carlos vem atraindo grandes empresas para a cidade. Entre elas estão uma fábrica de motores da Volkswagen, a americana Tecumseh, do setor de compressores para refrigeração, e uma unidade da Electrolux. Em 2001, a TAM inaugurou na cidade seu centro de manutenção de aeronaves. "Identificamos que a base tecnológica em mecânica e eletrônica seria um terreno fértil para promover a especialização de profissionais em aeronáutica", afirma Ruy Amparo, vice-presidente técnico da companhia aérea. Antes da inauguração do centro, os aviões da TAM recebiam manutenção na Europa. Agora, a empresa economiza 4 milhões de dólares por ano, além de gerar 600 empregos diretos. A chegada da TAM e também da Embraer -- que instalou sua segunda fábrica há cinco anos na cidade vizinha de Gavião Peixoto -- promoveu novos avanços no campo do ensino. A USP de São Carlos criou um curso de engenharia aeronáutica, o segundo do país, a prefeitura e o Senai abriram um curso técnico de manutenção de aeronaves e, neste ano, começou a funcionar um curso de tecnologia em aeronáutica na UFSCar. "Queremos ter a cadeia de formação completa para sustentar o pólo aeronáutico que está sendo criado na cidade", afirma o prefeito Lima Neto. "Ter o conhecimento não basta. É preciso ter a capacidade de transformar conhecimento em produto e serviço."

A capital da tecnologia
Com alta concentração de cérebros e centros de pesquisa, São Carlos tornou-se um berço de negócios movidos a inovação
No começo de 2009, quando o terceiro satélite sino-brasileiro, o CBERS- 3, for lançado ao espaço da base chinesa de Taiyuan, haverá festa na sede da Opto, empresa sediada em São Carlos, a 230 quilômetros da capital paulista. Há três anos a Opto trabalha na construção de duas câmeras fotográficas que funcionarão como os olhos e parte do cérebro do satélite. Essas câmeras superpotentes vão gerar imagens capazes de mostrar o nível de água dos rios e até mesmo uma ocupação ilegal de terra no Brasil ou na China. O desenvolvimento desse tipo de sistema é complexo. A "sala limpa", onde ocorre a montagem da câmera, tem um nível de assepsia superior ao de um centro cirúrgico. Qualquer impureza nas lentes pode interferir na definição das imagens. O trabalho exige tanta precisão que as máquinas não podem sofrer nenhum tipo de trepidação, nem a provocada pela passagem de um caminhão na rua. A sala foi construída sobre uma estrutura de concreto enterrada 8 metros no solo.

 

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